Nem senha nem curvaturas familiares.
Só o corpo pesado, fórmula orgânica acesa pelo holofote suspenso,
o soneto arterial e metafísico que sobreexcede o simulacro sinuoso,
uma réplica maior rematada a ponto de ouro.
Aqui, entre as gaivotas e o porquê das coisas, há evidências que se enrolam nos dedos.
A fractura na fronte pelo arquear perplexo
e o licor doce que és,
meneando entre maxilares
musicatas gustativas.
Dizer-te
sobre esse jeito que agitas em dias altos
quando de ti me corre
a urgência de corpo vivo.
Sabes (sabes) que me és acrescento
um tudo inteiro somado,
contorno que se alonga na pele que é mais,
porque me sobraste
quando te quis no corpo.
Sentido largo hasteado em mão
que não é já
naufrágio.
Apareces-me na inteireza absurda que é a evidência da tua morte. És-me vertigem.
Sentir-te tanto de tão junto que me és e ter peso em mãos pela ausência que se mostra de cada vez que penso o teu nome.
Afonso, a leveza que serás, porventura, agora, carrega-me o corpo.
Cansaço todo.
Nada teu a deslizar-me na força.
Cantar-te a vida
Sem ponto que seja
Sem pausa
Sem paragem
Canto longo
Em mão que corre.
Encerro maior,
esse
com que te terminaste
na primeira metade da manhã.
Tu
a doer-me como rasgo obscuro,
quebra velada.
Quiseste ser longe,
despedaçado
do alto em que te inicias
até ao ponto difuso
em que te acabas.
Nada absoluto
esse
que te julgo erguido
no braço pálido
que escorre a cor
em chão descaído.
Imagem viva
(ou imagem, ainda)
nalgum desespero de mãos,
nalgum corpo
em que vagueie pesada,
forte,.
a evidência absurda
do teu abandono.
Não te sei (porque nunca te soube) o antes,
e esse corpo em que desliza a posse
a gritar-me agudos no começo da manhã
a tropeçar nervoso na condição que assumo
a acordar-me a dormência
doce
de dia sereno.
Dois instantes
intermitência do que é, sentindo.
Foste.
És, agora,
O interstício difuso
O momento breve
Em que me desuno da palavra.
Surges aí, assim,
Como aparição
Como todo reunido contigo
Onde eu sou boca e dedo que a cala,
Fugindo-me ao corpo
A certeza da tua ausência.
Ciclo palavreado dos tempos,
Iniciado em ti
Terminando-se no que de solto tem a palavra.
A vida que se te acabou.
Mas
Se de ti conhecem o verso
De ti conhecem o sangue.
Prolongar-te-ei o canto
Comungando contigo
Em linguagem profunda.
Afonso.